Novo exame identifica quase 98% das lesões de tipo mais comum de câncer de rim
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Uma nova técnica de imagem conseguiu identificar 97,9% das lesões de um dos tipos mais comuns de câncer de rim, um resultado que pode representar um avanço na capacidade dos médicos de localizar tumores e descobrir se a doença se espalhou para outras partes do corpo.
O resultado faz parte de um estudo apresentado na semana durante o 39º Congresso Anual da Associação Europeia de Medicina Nuclear (EANM'26), realizado em Viena, na Áustria.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Turquia, avaliou 68 pacientes com carcinoma de células renais, o tipo mais frequente de câncer de rim em adultos. Os pesquisadores compararam duas modalidades de PET/CT, exame que combina imagens da atividade biológica dos tecidos com imagens detalhadas da anatomia.
A diferença foi expressiva: enquanto a técnica investigada identificou 97,9% das lesões do carcinoma renal de células claras, a modalidade comparada detectou apenas 47,1%. Esse subtipo representa aproximadamente 70% a 80% dos carcinomas de células renais.
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O avanço está na maneira como o exame procura o câncer. Em vez de identificar alterações no consumo de açúcar pelas células, como ocorre com um dos métodos de PET mais utilizados na oncologia, a nova abordagem busca uma proteína encontrada em grandes quantidades na superfície das células desse tipo de tumor.
Isso pode permitir que lesões antes pouco visíveis sejam identificadas com maior precisão, inclusive em órgãos distantes dos rins.
Os resultados, porém, ainda são preliminares. Apesar do desempenho elevado, a pesquisa envolveu um número relativamente pequeno de pacientes e não demonstrou que a utilização do exame aumenta a sobrevida ou melhora os resultados dos tratamentos.
Como funciona o novo exame?
Para entender a diferença, é preciso primeiro compreender como funciona o PET/CT.
ℹ️ O exame utiliza uma pequena quantidade de uma substância radioativa, chamada radiotraçador, que circula pelo organismo e permite identificar determinadas características biológicas dos tecidos.
Uma das versões mais utilizadas na investigação de diversos tipos de câncer emprega o FDG, uma substância semelhante à glicose, marcada com flúor-18 radioativo.
Como muitas células cancerígenas consomem grandes quantidades de glicose, elas podem aparecer como áreas de maior atividade no exame.
O problema é que essa estratégia apresenta limitações no câncer renal.
Isso acontece porque o FDG é eliminado pelos rins e se acumula na urina, o que pode dificultar a visualização de tumores na região. Além disso, alguns tumores renais apresentam baixo consumo de glicose, tornando-se menos evidentes nas imagens.
Para tentar superar essas dificuldades, os pesquisadores utilizaram uma substância radioativa que se liga a uma proteína encontrada em grandes quantidades nas células desse tipo de câncer, mas pouco presente no tecido renal saudável. Isso permite que os tumores apareçam com mais clareza nas imagens.
Essa proteína é encontrada em quantidades elevadas nas células do carcinoma renal de células claras, mas apresenta expressão muito menor no tecido renal saudável.
A proposta é fazer com que o radiotraçador se ligue às regiões onde a proteína está presente, ajudando a diferenciar o câncer dos tecidos ao redor.
Segundo Esra Arslan, pesquisadora da Universidade de Ciências da Saúde da Turquia e uma das responsáveis pelo estudo, essa característica permite utilizar um alvo biológico mais específico para a identificação do tumor.
Nos exames realizados, a captação do novo radiotraçador nas lesões foi aproximadamente cinco vezes maior do que a observada com o FDG. O contraste entre o tumor e os tecidos ao redor também foi cerca de dez vezes superior.
Isso significa que, nas imagens, as lesões ficaram mais evidentes, facilitando a identificação.
O que os pesquisadores descobriram?
O estudo foi prospectivo e multicêntrico, ou seja, acompanhou pacientes previamente selecionados e envolveu mais de um centro de pesquisa.
Ao todo, foram avaliados 68 pacientes e 492 lesões consideradas verdadeiras, incluindo tumores e focos da doença em outras regiões do organismo.
No conjunto de todos os subtipos de carcinoma renal avaliados, o novo exame identificou 90,9% das lesões, contra 56,7% com o FDG.
Quando os pesquisadores analisaram especificamente o carcinoma de células claras, os resultados foram ainda melhores: 97,9% das lesões foram identificadas pela nova abordagem, contra 47,1% pelo FDG.
A acurácia diagnóstica por paciente, medida que considera a classificação correta dos pacientes avaliados, também foi superior nesse subtipo: 98,2%, contra 77,2%.
Os pesquisadores observaram vantagens particularmente importantes na identificação de metástases, nome dado às lesões que surgem quando células cancerígenas se espalham para outros órgãos.
O novo PET identificou todas as metástases cerebrais e pulmonares consideradas verdadeiras na amostra. No caso dos pulmões, o FDG detectou aproximadamente metade dessas lesões.
Nos linfonodos, estruturas que fazem parte do sistema imunológico, a diferença também foi significativa: 95% das lesões foram identificadas pelo novo método, contra 68,9% pelo FDG.
O fígado foi uma exceção. Considerando todos os subtipos de câncer renal investigados, o exame convencional apresentou melhor desempenho nesse órgão. Segundo os pesquisadores, isso pode acontecer porque alguns tumores renais apresentam quantidades menores da proteína utilizada como alvo pela nova técnica, o que dificulta sua identificação.
Por que identificar mais lesões pode mudar o tratamento?
Descobrir exatamente onde o câncer está localizado é uma das etapas mais importantes para definir o tratamento.
Isso porque a conduta médica depende não apenas do tamanho do tumor original, mas também da presença de lesões nos linfonodos e em outros órgãos.
Um paciente com um tumor restrito ao rim, por exemplo, pode ter indicação de cirurgia para remover a doença. Já quando o câncer se espalhou para outras regiões, o tratamento pode envolver medicamentos sistêmicos, como imunoterapia e terapias-alvo, além de outras intervenções conforme o caso.
A identificação de novas metástases também pode modificar o chamado estadiamento, classificação utilizada para determinar a extensão da doença.
Foi justamente nesse aspecto que os pesquisadores observaram outro resultado importante.
O novo exame levou a mudanças na classificação da extensão do câncer ou na conduta clínica em 30,9% dos pacientes. Com o PET utilizando FDG, esse percentual foi de 5,9%.
Entre as mudanças relatadas estavam a identificação de tumores que permaneceram após o tratamento, a descoberta de recorrências e a localização de metástases até então desconhecidas.
Em alguns casos, pacientes que pareciam apresentar apenas um pequeno número de metástases foram reclassificados como portadores de doença mais disseminada.
Além disso, em três pacientes, o novo exame descartou achados considerados positivos pelo PET com FDG. Segundo os pesquisadores, isso evitou intervenções desnecessárias.
Esses resultados sugerem que o método pode contribuir para decisões médicas mais bem fundamentadas. Entretanto, identificar mais lesões não significa, automaticamente, proporcionar tratamentos mais eficazes ou aumentar a expectativa de vida dos pacientes. Essa relação ainda precisa ser investigada.
O exame pode substituir os métodos atuais?
Por enquanto, não. Embora a comparação com o FDG tenha produzido resultados expressivos, é importante considerar que o PET com FDG não é o exame de rotina recomendado para o estadiamento inicial do câncer renal.
Atualmente, as diretrizes da Associação Europeia de Urologia recomendam principalmente a tomografia computadorizada com contraste para avaliar os tumores renais e a extensão da doença. A ressonância magnética também pode ser utilizada em situações específicas.
O PET com FDG apresenta limitações conhecidas nesse tipo de câncer e, por isso, não é recomendado rotineiramente para o estadiamento inicial.
Isso significa que o estudo demonstrou uma vantagem importante da nova tecnologia sobre outra modalidade de PET, mas não comprovou que ela seja superior aos exames já recomendados para todos os pacientes com câncer renal.
Também será necessário avaliar em quais situações a nova abordagem realmente acrescenta informações que a tomografia e a ressonância não conseguem fornecer.
Os próprios autores reconhecem que ainda não é possível considerar a tecnologia um novo padrão de diagnóstico.
Para Esra Arslan, os resultados apontam que o exame pode se tornar uma ferramenta útil em diferentes fases do acompanhamento do câncer renal. No entanto, ela ressalta a necessidade de estudos maiores, capazes de avaliar separadamente os diferentes subtipos da doença.
O que falta para o exame chegar aos pacientes?
Os pesquisadores apontam três possíveis aplicações futuras:
avaliar a extensão do câncer antes de uma cirurgia,
investigar suspeitas de retorno da doença e
identificar pacientes que poderiam se beneficiar de terapias direcionadas à mesma proteína utilizada pelo exame.
Essa última possibilidade faz parte de uma estratégia chamada teranóstica, que combina diagnóstico e tratamento a partir de um mesmo alvo molecular.
Nesse caso, o exame serviria para localizar tumores que apresentam grandes quantidades dessa proteína. A partir disso, os médicos poderiam identificar pacientes com potencial para receber um tratamento que utiliza uma substância radioativa direcionada ao mesmo alvo, capaz de levar radiação diretamente às células tumorais.
A possibilidade ainda está em investigação e não deve ser confundida com um tratamento já comprovado para esses pacientes.
Antes de incorporar a nova técnica à rotina clínica, os cientistas terão de responder a questões importantes, entre elas se os resultados se repetem em grupos maiores, qual é a segurança do método e se o uso da tecnologia efetivamente melhora a evolução da doença.
Também será necessário compreender melhor seu desempenho nos diferentes subtipos de câncer renal.
Por enquanto, a pesquisa representa um avanço na capacidade de visualizar determinados tumores, mas não uma mudança imediata na forma como o câncer de rim é diagnosticado e tratado.